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A História

DSC05996Um homem de sorte

D. Manuel subiu ao trono em circunstâncias especiais. Pertencia à família real, mas não podia aspirar à coroa, pois na monarquia portuguesa as regras da sucessão eram bem claras: quando morria um rei subia ao trono o filho mais velho. Acontece que D. Manuel embora pertencesse à família, não era filho de rei.

A sorte, porém, beijou-o. O seu antecessor, D. João II, não deixou descendentes diretos. O único filho legítimo morrera aos dezesseis anos devido a uma queda de cavalo nas margens do rio Tejo perto de Santarém.

Nestes casos o sucessor passava a ser o parente mais próximo. E o parente mais próximo de D. João II era o primo e cunhado.  D. Manuel assim herdou a coroa de Portugal. O povo chamou-lhe O Venturoso, o que significa “com sorte”.

Em 1495 sentou-se no trono. Tinha vinte e seis anos, era solteiro e certamente estava feliz com aquela volta do destino!

Durante o seu reinado os descobrimentos prosseguiam. Foi a época das grandes viagens.

Em busca do caminho marítimo para a Índia:
Os preparativos

Os preparativos para a viagem à Índia estão envoltos em algum mistério.
Por que motivo a viagem não se realizou mais cedo? Quem preparou a armada? Quem escolheu o capitão?
A viagem que levou os portugueses a descobrirem “uma grande terra a ocidente” era na verdade uma viagem para o oriente, ou seja, a Índia.

A armada de Pedro Álvares Cabral

De acordo com as informações trazidas por Vasco da Gama, não seria fácil impor a presença portuguesa na Índia. A única hipótese de obter sucesso era pela força.

D. Manuel I não hesitou, mandou preparar uma grande armada: 13 navios com o dobro do tamanho dos anteriores, um bom carregamento de armas com 1500 homens, a bem ou mal tronar-se-ia senhor do comércio do Índico.

O capitão escolhido foi Pedro Álvares Cabral, fidalgo da corte que merecia a confiança do rei, com ele iam, entre outros, Bartolomeu Dias, o seu irmão Diogo Dias. Nicolau Coelho. O famoso piloto Pêro Escobar foi um homem que passou a história pelos feitos de navegador, e Pêro Vaz de Caminha por escrever muito bem. A ele se deve o relato minucioso do descobrimento do Brasil, pois a carta que enviou a D. Manuel sobre o assunto chegou até os nossos dias.

“E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza do que nesta vossa terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha, de Vos tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo.”

(Trecho da Carta de Caminha)

 

Recomendações ao capitão

Para facilitar a vida do capitão, Vasco da Gama que tinha feito a  primeira viagem forneceu-lhe um documento  com indicações preciosas sobre a rota a adotar e a melhor maneira de proceder em situações diversas. Por exemplo:
Se ao chegarem às Ilhas canárias os ventos forem contrários, mas valia regressar a Lisboa e tornar a partir.
Depois das canárias, deviam reabastecer-se em Cabo Verde, de preferência na Ilha de Santiago. Caso houvesse uma epidemia nessa ilha, procurariam então São Nicolau.

Para não se perderem um dos outros, ou seja, para “se manterem em conserva”, o capitão assinalaria as mudanças de rumo com tiros de canhão a que as outras naus responderiam. Assim sabiam sempre onde se encontravam os companheiros.

No caso de uma nau se afastar demasiado durante a noite o melhor era amainarem as velas e só irem procurá-la no dia seguinte.

Aventuras no atlântico

Pedro Álvares Cabral largou das margens do rio Tejo em Lisboa, a 9 de março de 1500.
A viagem decorreu sem maiores novidades  até Cabo Verde. A primeira ilha que avistaram foi a São Nicolau.

Esta etapa ficaria assinalada por um desastre incompreensível: a nau comandada por Vasco de Ataíde desapareceu sem deixar rastro, não houve nenhuma tempestade, incêndio ou pedido de socorro e apesar de todo esforço em procurá-la, não encontraram sequer vestígios de náufragos. Sumiu de uma vez, como se dizia na época “comeu-a o mar”.

Embora desgostosos, prosseguiram rumo a ocidente conforme as instruções recebidas.

Sinais de terra

A 21 de abril tornou-se evidente que estavam perto da terra, pois avistaram um tipo de alga chamada Botelho ou rabo-d’asno que não aparece no mar alto. Tomaram rumo para esclarecerem as dúvidas.

Porquê?

Há quem diga que os portugueses já conheciam esta aterra desde o tempo de D. João II, mas que o seu achamento ficara em segredo para facilitar as negociações do tratado de Tordesilhas. Nesse caso Pedro Álvares Cabral teria recebido ordens expressas para, de caminho para a Índia, descobrir oficialmente a tal terra secreta. É uma hipótese, mas até hoje não apareceram documentos que provem esta teoria, nem ninguém explicou por que motivo não se revelou ao mundo a sua existência depois do tratado de Tordesilhas.

Os Tupiniquins

Naquela zona, depois chamada Porto Seguro vivia uma tribo de índios – os Tupiniquins. Belos, simpáticos, afáveis, deixaram os marinheiros encantadíssimos! Pêro Vaz de Caminha descreveu-os muito bem: pardo de pele avermelhada, com feições bonitas cabelos negros muito lisos, que os homens usavam cortados por cimas das orelhas e as mulheres soltos pelos ombros. Andavam nus e não demonstravam vergonha, sendo tão elegantes, ninguém se sentiu chocado, a inocência do paraíso.

Alguns ostentavam pinturas no corpo, bonitas toucas feitas com pena de papagaio e colares de continhas miúdas. No lábio inferior atravessavam um osso branco que aparentemente não perturbava nenhuma função.

Falavam, comiam e bebiam sem que o osso fosse um estorvo.

Nada assustados com a presença de estranhos dispuseram-se a ir a bordo.

Pedro Álvares Cabral recebeu-os na nau e, embora não falassem a mesma língua procurou conhecê-los melhor, para isso foi mostrando animais e objetos. Primeiro um papagaio africano. Os índios pegaram-lhe e fizeram gestos para a terra, dando a entender que também tinham daquelas aves.

Em seguida os marujos trouxeram um carneiro. Eles não se importaram. Depois uma galinha, que os assustou.

O capitão ofereceu-lhes também comida: pão, peixe cozido, doces, vinhos. De tudo provaram e de tudo cuspiram, enjoados.

Pelo visto os hábitos alimentares daquele povo eram muito diferentes.
Talvez cansados de tanta experiência nova, deitaram-se os índios sobre um carpete e adormeceram confiantes como crianças. Esta atitude enterneceu o capitão.

Que gente pacifica serena. Mandou cobri-los para não arrefecerem e por baixo de cada cabeça foi colada uma almofadinha.

Que pena as relações entre diferentes povos que encontraram por esse mundo não terem continuado assim amigáveis.

Ao primeiro contato pensaram que eram extremamente pacíficos. Puro engano!
Entre as varias tribos havia lutas constantes pela posse do território e os homens orgulhavam-se das qualidades demonstradas, na guerra. Possuíam arcos, flechas, lanças em caso de necessidade chamavam as mulheres para combater.

As batalhas entre Índios eram espetaculares. Todos eram exímios na pontaria e enfeitavam a si próprios e as armas com pinturas e penas.

A vida cotidiana também obedecia a regras. As mulheres ocupavam-se com as atividades agrícolas e a coleta de frutos e plantas.

Colaboravam na pesca e a elas competia o transporte de animais abatidos.
Fabricavam farinha, preparavam os alimentos, faziam óleo de coco, fiavam algodão e teciam as redes.
Também produziam cestos e objetos de cerâmica, cuidavam dos animais domésticos. Competia-lhes cuidar dos filhos, depilar e pintar com tatuagens o corpo dos homens.

Quanto aos homens, derrubavam árvores e preparavam a terra para ser cultivadas, caçavam e pescavam com flechas e redes e tinham a seu cargo o fabrico de canoas e armas bem como a construção das ocas.
Acendiam o fogo e eventualmente tatuavam suas mulheres, não por obrigação mais como manifestação de carinho.
Os índios casavam quase sempre com  elementos da mesma família, podiam ter varias esposas, em média três ou quatro. As crianças sobre tudo pertenciam aos pais.

Procuravam educá-las de modo a que respeitassem os adultos. As relações entre pessoas do mesmo sangue eram muito carinhosas. Alegres, brincalhões, os pequenos índios assobiavam como pássaros e aprendiam a cantar e a dançar ao som de instrumentos muito simples, geralmente cabaças com pedrinhas dentro.
A religião incluía deuses e demônios, a quem faziam oferendas para evitar desgraças como trovões e catástrofes ameaçadoras. Acreditavam na imortalidade da alma e no paraíso.

Os tupi-guarani tinham uma língua comum, com variações que não os impediam de se entenderem.
Antes da chegada dos portugueses, as tribos todas em conjunto somavam entre dois a três milhões de pessoas.

A armada de Cabral ficou ancorada na baía de um porto seguro durante dez dias. Os marinheiros tiveram oportunidade de lavar roupa, encher pipas de água, cortar lenhas e provar alimentos diferentes. Ao que parece adoraram palmitos.

Antes de partirem foi despachada  a embarcação de Gaspar de Lemos para Portugal com uma grande carta escrita por Pêro Vaz de Caminha para dar a notícia.

A carta de Pêro Vaz de Caminha termina de forma muito pessoal. Depois de elogiar quanto viu naquilo que se supunham ser uma ilha e depois de garantir que valia muito a pena tomar conta da nova terra, depois de se desculpar por ter escrito demasiadas páginas, arremata pedindo ao rei que conceda perdão ao seu genro que se encontrava degradado na ilha de São Tomé.

A primeira cerimônia

A primeira cerimônia coletiva em terras de Vera Cruz foi uma missa. Fincaram uma cruz na praia, montaram um altar, ergueram a bandeira da Ordem de Cristo, e o padre cumpriu o ritual, cantando em latim. Os Índios assistiram fascinados.

A viagem continua

A viagem continuou conforme estava previsto, agora só com onze barcos.
A partida foi a Dois de maio e tomaram a rota em arco que lhes recomendara Vasco da Gama. Perto do cabo da Boa Esperança, ao sul da África, foram apanhados por uma enorme tempestade. Ondas gigantescas jogavam as embarcações em alturas inacreditáveis, precipitando-as depois no abismo onde julgavam mergulhar para sempre.

Um dos navegadores que encontraram a morte ao largo do cabo da Boa Esperança foi Bartolomeu Dias. Tinha sido o primeiro a vencer aquele obstáculo treze anos antes (vingança do gigante Adamastor) contra quem desvendara os segredos, como escreveu Luís de Camões:

Num estado miserável, os sobreviventes navegaram dispersos até Sofala, onde se reencontraram a 15 de junho. Constataram então que a armada só possuía seis barcos.

Um julgamento severo

Inicialmente D. Manuel  não ficou muito satisfeito com o resultado da expedição de Cabral às terras tupiniquins. Tinha perdido sete naus, o que representava um grande prejuízo. Também não aceitou de bom grado os fracassos em Calecute (costa oeste da Índia), pois todos lhe diziam que para dominar o comércio no Oceano Índico, aquela cidade era essencial. Nem o fato de virem carregados de especiarias lhe abrandou o ânimo. Não houve, portanto, cortejos triunfais e Pedro Álvares Cabral apenas recebeu uma magra recompensa. As rendas que ele já possuía.

Só em 1514, quando se tornou evidente que a posse do Brasil daria bons lucros, Pedro Álvares Cabral viu reconhecido o seu valor.

Pedro Álvares Cabral nasceu em Belmonte em 1467. Foi o nono filho de um nobre de alta linhagem chamado Fernão Cabral, que era Alcaide-mor de Belmonte. A mãe de D. Isabel de Gouveia, também pertencia a mais distinta nobreza e a família possuía brasão de armas. Quando criança Pedro Álvares Cabral freqüentou a corte de D. João II e deve ter-se distinguido como pessoa de valor, pois o rei atribuiu-lhe uma quantia anual em paga de serviços prestados. D. Manuel I integrou-o no grupo de conselheiros que o apoiavam e deu-lhe a honra de pertencer a Ordem de Cristo.

Casou com D. Isabel de Castro que pertencia a uma das mais ilustres e poderosas famílias da época. Tiveram quatro filhos: Fernando, Antônio, Constância e Guiomar.
Esta ultima tornou-se freira no Convento da Rosa, em Lisboa.
Pedro Álvares Cabral passou a história como descobridor do Brasil.
Embora não tenha realizado mais viagens, pode-se considerar que foi um capitão hábil, respeitado e ativo. Celebram-no com igual carinho portugueses e brasileiros.
Está sepultado na Igreja da Graça, em Santarém ao lado da mulher.